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Bursite trocantérica (dor lateral do quadril) em corredoras: por que aparece

É uma das lesões mais comuns em corredoras de meia-idade, e quase nunca é o que o nome sugere. Dor lateral do quadril que parece bursite raramente é só bursite — é tendinopatia glútea, e o tratamento mudou completamente.

Equipe Editorial Ultra Sports Science
Revisado clinicamente por Leonardo Pires · CREFITO-3/29330-F
Última revisão clínica: 06/05/2026
Corredora com dor, segurando a lateral do quadril direito após a corrida, em fundo clínico esportivo azul e ciano
Corredora com dor, segurando a lateral do quadril direito após a corrida, em fundo clínico esportivo azul e ciano

Bursite trocantérica (dor lateral do quadril) em corredoras: por que aparece

Você é mulher, corre há um tempo, está na faixa dos 40-60 anos. Aparece uma dor lateral no quadril — bem na proeminência óssea quando você toca. Dói após corridas, dói deitando do lado afetado à noite. Foi ao médico, ouviu "bursite trocantérica". Tomou anti-inflamatório, fez gelo, e a dor não passa.

Não passa porque o nome do diagnóstico é, em parte, incorreto. A medicina atual entende essa condição como síndrome do trocanter maior do fêmur (Greater Trochanteric Pain Syndrome — GTPS), e na maioria dos casos é tendinopatia glútea, não bursite isolada. Essa diferença muda completamente o tratamento — e a maioria das mulheres que tratam corretamente melhoram.

Resumo executivo

  • "Bursite trocantérica" é diagnóstico antigo, conceito atual é GTPS (síndrome dolorosa do trocanter)
  • Causa principal: tendinopatia dos glúteos médio e mínimo (não bursite isolada)
  • Mais comum em mulheres 40-60 anos, especialmente corredoras
  • Repouso e anti-inflamatório isoladamente raramente resolvem
  • Tratamento moderno: carga progressiva + manejo de fatores biomecânicos
  • 70-90% melhoram com tratamento conservador adequado em 3-6 meses

A revolução conceitual

Por décadas, dor na lateral do quadril era automaticamente "bursite trocantérica". O modelo era: bursa inflamada → anti-inflamatório + gelo + repouso resolveriam.

Pesquisa moderna (Bird et al., 2001; Long et al., 2013; Mellor et al., 2018) mudou completamente esse entendimento:

  • A maioria dos pacientes não tem inflamação significativa de bursa em ressonância
  • Há tendinopatia dos glúteos (médio e mínimo) na vasta maioria dos casos
  • Bursite, quando presente, é geralmente secundária à disfunção tendínea
  • Tratamento como tendinopatia é mais efetivo que como bursite

Por isso o nome moderno é Síndrome do Trocanter Maior (GTPS) ou Tendinopatia Glútea.

Anatomia do problema

O trocanter maior é a saliência óssea da face lateral do quadril (você consegue palpar). Vários músculos se inserem ali:

  • Glúteo médio (principal estabilizador lateral do quadril)
  • Glúteo mínimo
  • Trato iliotibial passa próximo

E há bursas (4-5, dependendo do indivíduo) entre essas estruturas para reduzir atrito.

Quando há sobrecarga repetitiva ou compressão excessiva (especialmente da banda iliotibial sobre as estruturas), os tendões dos glúteos podem desenvolver tendinopatia. As bursas podem inflamar secundariamente.

Resultado: dor mecânica na região, com características específicas.

Por que é mais comum em mulheres

Vários fatores explicam o predomínio feminino (proporção 4:1):

Anatomia pélvica Pelve feminina é mais larga, criando um ângulo maior entre o fêmur e o quadril (ângulo Q maior). Isso aumenta a tensão na banda iliotibial e cargas compressivas no trocanter.

Hormonais Variações hormonais (menopausa, estrogênio reduzido) podem afetar saúde tendínea.

Densidade óssea Mulheres têm maior risco de fragilidade óssea progressiva, com possível impacto em tendões e cargas.

Padrão de corrida Algumas mulheres correm com adução excessiva do fêmur (joelho cruzando linha média), aumentando carga no glúteo médio.

Sintomas característicos

Sintomas típicos:

  • Dor lateral do quadril, sobre o trocanter
  • Sensibilidade pontual à palpação local
  • Pior ao deitar do lado afetado (sintoma quase universal)
  • Pior ao subir escada
  • Pior após corrida ou caminhada longa
  • Pode irradiar para coxa lateral
  • Sensação de "desconforto" mesmo sem dor

Sinais associados:

  • Sinal de Trendelenburg ou compensação na marcha (queda da pelve oposta)
  • Fraqueza de glúteo médio
  • Padrão de corrida com adução excessiva (joelho cruzando linha média)
  • Histórico de aumento recente de volume de corrida

Diferenciações:

Versus dor lombar:

  • GTPS: dor pontual no quadril
  • Lombar: dor que vem das costas e desce

Versus síndrome da banda iliotibial:

  • GTPS: dor mais alta, no trocanter
  • ITB: dor mais lateral do joelho

Versus impacto femoroacetabular:

O que dizem as evidências

Tratamento como tendinopatia é superior

Estudo seminal LEAP (Mellor et al., 2018, BMJ): comparou educação + carga progressiva vs cortisona vs "esperar e ver". Em 8 semanas, cortisona deu alívio mais rápido, mas em 12 meses o grupo de exercício teve melhor desfecho (76% vs 58% sem dor significativa). Cortisona perde efeito; exercício é durável.

Cortisona alivia rápido, com cuidado

Como em outras tendinopatias, cortisona pode aliviar agudamente, mas evidência mostra desfechos piores em longo prazo se for o único tratamento.

Carga progressiva + manejo de fatores biomecânicos

Pesquisa de Ganderton et al. (2018): combinação de exercício terapêutico + correção de padrões biomecânicos + educação sobre manejo de carga é a abordagem com melhor evidência.

Compressão é fator chave

Cook & Purdam (2012) descreveram que compressão lateral repetitiva sobre o trocanter (deitar do lado afetado, andar com adução excessiva, sentar com pernas cruzadas) é fator agravante importante. Modificar essas posições é parte do tratamento.

O que isso significa pra você

Cinco mensagens práticas:

1. Não é só bursite Tratamento focado em "reduzir inflamação" não vai resolver tendinopatia degenerativa.

2. Compressão importa muito Posições específicas (deitar do lado afetado, sentar com pernas cruzadas) agravam o quadro. Modificar essas posições traz alívio significativo.

3. Cortisona é alívio temporário Pode ter papel em casos com dor incapacitante para permitir exercício terapêutico, mas não é solução.

4. Resultado leva tempo 3-6 meses de tratamento adequado é o padrão. Tendões regeneram lentamente.

5. Fortalecimento de glúteo é central Glúteo médio fraco é fator perpetuador. Sem corrigir essa fraqueza, recidiva é regra.

Sinais de alerta

Procure médico se:

  • Dor severa após trauma direto
  • Inchaço significativo
  • Vermelhidão e calor (suspeita de infecção)
  • Limitação importante de marcha
  • Dor noturna intensa que não melhora

Procure fisioterapeuta:

  • Dor há mais de 4-6 semanas
  • Limitação progressiva
  • Dor noturna ao deitar do lado
  • Recidivas frequentes

Tratamento baseado em evidência

⚠️ Os exercícios abaixo são exemplos. Antes de iniciar, consulte fisioterapeuta para avaliação individual.

Fase 1 — Modulação (semanas 1-3)

Modificações de carga e posicionamento:

  • Não deitar do lado afetado durante fase aguda (use travesseiro entre pernas se decúbito lateral é necessário)
  • Evitar sentar com pernas cruzadas
  • Evitar permanecer em pé com peso lateral (apoiar em uma perna)
  • Reduzir volume de corrida temporariamente

Exercícios isométricos do glúteo:

  • Abdução do quadril em pé contra parede, manter 30s
  • 5 repetições, 1-2x ao dia
  • Apenas começa a dor mínima

Crioterapia local em fases mais doloridas (adjuvante).

Fase 2 — Fortalecimento progressivo (semanas 2-12)

Fortalecimento do glúteo médio (essencial):

  • Clamshell progressivo (de leve a com elástico forte)
  • Side-leg raise lateral
  • Step-down lento
  • Single-leg squat com controle
  • Agachamento com elástico ao redor dos joelhos

Fortalecimento do glúteo máximo:

  • Ponte unilateral
  • Hip thrust com peso
  • Single-leg deadlift

Trabalho de cadeia anterior (estabilidade):

  • Plank lateral
  • Side plank com elevação de perna
  • Bird dog

Dose: 3 séries de 10-15 repetições, 3-4x por semana, com progressão de carga.

Fase 3 — Função e retorno (semanas 8-16)

  • Reintrodução progressiva de corrida
  • Análise de cadência (aumentar 5-10% se baixa)
  • Trabalho de propriocepção
  • Modificações técnicas se necessário

Fase 4 — Manutenção

  • Manter trabalho de glúteo 2x/semana indefinidamente
  • Atenção a sinais precoces
  • Variação de superfícies

Modificações específicas para corredoras

Cadência: aumentar passos por minuto (5-10%) reduz adução de quadril.

Cross-training: introduzir bike, elíptico, natação durante reabilitação aguda.

Reduzir desníveis: subidas/descidas longas estressam glúteo médio. Reintroduzir gradualmente.

Tênis: avaliar pisada — pronação excessiva sem suporte adequado aumenta carga.

Banda iliotibial: liberação miofascial pode complementar tratamento.

Tratamentos com evidência limitada

Ondas de choque: evidência moderada para casos refratários.

Cortisona: alívio rápido, com limitações já discutidas. Pode ter papel em casos selecionados.

PRP: evidência conflitante.

Cirurgia: reservada para casos refratários por anos. Pode envolver reparação tendínea ou descompressão.

Perguntas frequentes

Quanto tempo até resolver? Casos típicos: 3-6 meses com tratamento adequado.

Posso continuar correndo? Em casos leves a moderados, sim com volume reduzido. Casos severos podem requerer pausa de 4-8 semanas.

Anti-inflamatório resolve? Reduz sintomas temporariamente. Não trata a causa.

Almofada para deitar de lado funciona? Muito útil. Travesseiro entre joelhos no decúbito lateral reduz compressão sobre o trocanter.

Cortisona vale a pena? Pode aliviar agudamente. Decisão informada com profissional, considerando longo prazo.

Massagem ajuda? Liberação da banda iliotibial e musculatura associada pode ser adjuvante. Não substitui carga progressiva.

Vai virar artrose? GTPS em si não causa artrose de quadril. Mas fatores biomecânicos não corrigidos podem contribuir.

Existe diferença em mulheres na pós-menopausa? Sim. Alterações hormonais podem afetar saúde tendínea. Trabalho de força é especialmente importante nessa fase.

Limitações dos estudos

Diferenciação clínica entre tendinopatia e bursite é difícil sem ressonância. Resposta a exercício varia individualmente. Estudos específicos em corredoras brasileiras são limitados.

Referências

  1. Mellor R, et al. Education plus exercise versus corticosteroid injection use versus a wait and see approach on global outcome and pain from gluteal tendinopathy: prospective, single blinded, randomised clinical trial. BMJ. 2018;361:k1662. PMID: 29739737
  2. Long SS, et al. Sonography of greater trochanteric pain syndrome and the rarity of primary bursitis. AJR Am J Roentgenol. 2013;201(5):1083-6. PMID: 24147479
  3. Ganderton C, et al. Gluteal Loading Versus Sham Exercises to Improve Pain and Dysfunction in Postmenopausal Women with Greater Trochanteric Pain Syndrome: A Randomized Controlled Trial. J Womens Health (Larchmt). 2018;27(6):815-829. PMID: 29406797
  4. Bird PA, et al. Prospective evaluation of magnetic resonance imaging and physical examination findings in patients with greater trochanteric pain syndrome. Arthritis Rheum. 2001;44(9):2138-45. PMID: 11592379
  5. Cook JL, Purdam C. Is compressive load a factor in the development of tendinopathy? Br J Sports Med. 2012;46(3):163-8. PMID: 22113234

Aviso médico

As informações deste artigo têm caráter educativo e não substituem consulta, diagnóstico ou tratamento por um(a) fisioterapeuta ou médico(a). Em caso de dor, lesão ou dúvida, agende uma avaliação.

Perguntas frequentes

Quanto tempo até resolver?
Casos típicos: 3-6 meses com tratamento adequado.
Posso continuar correndo?
Em casos leves a moderados, sim com volume reduzido. Casos severos podem requerer pausa de 4-8 semanas.
Anti-inflamatório resolve?
Reduz sintomas temporariamente. Não trata a causa.
Almofada para deitar de lado funciona?
Muito útil. Travesseiro entre joelhos no decúbito lateral reduz compressão sobre o trocanter.
Cortisona vale a pena?
Pode aliviar agudamente. Decisão informada com profissional, considerando longo prazo.
Massagem ajuda?
Liberação da banda iliotibial e musculatura associada pode ser adjuvante. Não substitui carga progressiva.
Vai virar artrose?
GTPS em si não causa artrose de quadril. Mas fatores biomecânicos não corrigidos podem contribuir.
Existe diferença em mulheres na pós-menopausa?
Sim. Alterações hormonais podem afetar saúde tendínea. Trabalho de força é especialmente importante nessa fase.

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Referências

  1. , 2018
  2. , 2013
  3. , 2018
  4. , 2001
  5. , 2012

Autoria e revisão

Escrito por Equipe Editorial Ultra Sports Science. Revisão técnica por Leonardo Pires — Fisioterapeuta, CREFITO-3/29330-F.

Última revisão clínica: 06/05/2026

Em conformidade com a Política Editorial e a Resolução COFFITO 532/21.

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